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Sem mártires e heróis, com vitimistas e celebridades; assim estamos

Clotilde Perez

Na sociedade na qual vivemos, capitalista, democrática, ainda que com inúmeras imperfeições, atravessada pelo consumo e alicerçada por valores individualistas, muitas vezes “pouco republicanos”, buscamos a felicidade fácil, que possa ser obtida rapidamente e sem esforços. Assim, os feitos edificantes dos heróis do passado, as realizações fantásticas dos super-heróis mais recentes e suas versões ambíguas ainda mais atuais, pautados sempre em algum sacrifício, abnegação, coragem, elevado senso de responsabilidade e foco no coletivo, parecem não fazer qualquer sentido; são na verdade, ultrajantes e até mesmo repugnantes. Já os mártires, identificados com o sacrifício profundo, sofrimentos, renúncias e até mesmo morte a favor de causas amplas, são totalmente incompreensíveis, quando não risíveis por todos, porque rir é a lei. Como alguém é capaz de tamanha insanidade? Sofrer “em prol de”, sacrifícios individuais imediatos visando satisfação coletiva futura não parece nada razoável em um contexto de individualismos expandidos e ilimitados. Estamos habitando um tempo-espaço que despreza os ideais da coletividade e do longo prazo; o foco está nos interesses particulares e na gratificação imediata e constante, a tal felicidade, em uma visão senso-comum.

            Outro aspecto marcante nos dias de hoje é a naturalização do vitimismo, uma vez que todo evento de sofrimento, desconforto ou mesmo ambição frustrada, é, pelo menos em potencial, um caso de vitimização – assim, qualquer pessoa que sofra qualquer coisa é uma vítima. Não que não possa haver vítima, é bom que se diga, mas, em um contexto que cultua a felicidade acima de tudo, o sofrimento e as frustrações não têm vez, e se ocorrem, é por culpa de “alguém”; as autoanálises estão escassas. Todo o sofrimento é compreendido pelo viés da presunção do vitimismo, criando por um lado uma turba de ressentidos, que têm certeza de que não estão nada implicados com o ocorrido, mas por outro, um certo alívio terapêutico que pode ter seus benefícios por simplesmente colocar foco no “outro”, um bálsamo que não se despreza. Outro aspecto é que a vitimização nos deixa continuamente na posição de vingança, muitas vezes nos impulsionando na direção da compensação financeira, algo que encontra acolhimento pelo viés da satisfação fundada na potencialidade do ter. Em uma perspectiva psicanalítica, o ressentido se coloca em uma posição de superioridade moral imaginária, o que também é reconfortante, mas tem consequências.

            Outra personagem muito atual, que rivaliza em relevância com os vitimistas cotidianos, são as celebridades. Donas de um manejo amplo e estratégico das mídias e seus transbordamentos, funcionam como outrora os mártires e heróis, proporcionando, o que Bauman (2007), na obra Vida líquida, chama de “cola” que aproxima e mantém juntos grupos de pessoas que sem elas seriam difusos e dispersos. Caracterizam-se pela notoriedade, abundância de imagens, frequência midiática e uma postura perto-longe peculiar. Completamente distintas dos vitimistas, as celebridades não sofrem “nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho”, em uma referência ao eterno Fernando Pessoa no Poema em Linha Reta; são felizes, realizados, prósperos, enfim, completos. Amealham milhões de adoradores, ou na versão mais atual, seguidores nas mídias sociais, fãs entusiasmados reunidos por afinidades e fascínio pelo culto.

            Mas, a que servem os vitimistas e as celebridades? Não estariam todos esses demasiados centrados em si próprios? Como ficamos nós enquanto coletivo, povo, humanidade? Não temos mais defensores restando o “cada um por si”?

            Parece mesmo que ficamos assim, sem mártires e heróis, com vítimas e celebridades, bem difícil…

 

   

Professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, é titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Ela é fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Ela apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.

 

 

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Referências

BAUMAN, Zygmunt. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007

PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944/1993

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