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Resiliência, refúgio psicológico e licença para o sofrimento

Clotilde Perez

Aprendemos, nos últimos meses, uma série de novas palavras e expressões que de alguma maneira buscam concretizar as recentes experiências e sentimentos vividos cotidianamente. Uma das que mais me chama a atenção é a palavra resiliência. Com usos atribuídos as pessoas, móveis, objetos de decoração, equipamentos, construções, marcas, empresas e organizações diversas. Mote de campanhas publicitárias, resiliência virou um hit fetichista também nos discursos de gestores e executivos de todas as áreas.

Resiliência, uma palavra latina, é empregada na Física para nomear a característica mecânica que define a resistência dos materiais aos choques, revela, portanto, a capacidade de um material retornar à sua condição inaugural após ter sofrido um impacto, por exemplo. A Psicologia positiva, movimento recente que tomou caminhos mais emocionais orientados pela busca da felicidade, bem distinta da “clássica” Psicologia e também da Psicanálise, centradas nos sintomas, disfunções e sofrimentos, se apropriou com toda a ênfase, fazendo da resiliência um mantra discursivo potente. Também as consultorias de coaching, especializadas no treinamento de pessoas para fins, acredita-se, de desenvolvimento pessoal e profissional, a incorporou em seus relatos e como fundamento de seus exercícios de autoestima e mudança de mindset (outro fetiche linguístico, desta vez acrescido do pseudo-charme do estrangeirismo). Evidentemente, não demoraria para resiliência ser assumida pelo discurso corporativo sempre seduzido pelos feixes bruxuleantes da moda, característica marcante da falta de reflexão e do hábito do estudo permanente. Assim, empresas e marcas viraram resilientes.

Mas, a questão de sempre é: o que significa uma pessoa resiliente e o que significa uma organização resiliente? Como é impossível desconsiderar o crescimento de todo e qualquer signo, inclusive o signo linguístico, vejamos o percurso de adensamento de sentidos que a palavra ganhou no tempo. Uma pessoa resiliente, como prega a Psicologia positiva, inspirada na Física, é aquela que tem a capacidade de se adaptar às intempéries, às oscilações ou aos infortúnios da vida, ou seja, uma pessoa que goza de uma tendência natural para se recuperar ou superar com facilidade os problemas que aparecem no dia a dia. Parece mesmo muito bom. No entanto, materiais podem sim ser capazes de voltar a sua condição original com mínimas ou até mesmo, sem consequências, e um dos caminhos para aqueles materiais que não são elásticos, é o restauro, e todos sabemos o nível de investimento para que ele seja efetivado com total qualidade, mas é possível.

Mas para nós, reles humanos, é tudo bem mais complicado. Marcas, cicatrizes, frustrações, tristezas, traumas, perdas, recalques são difíceis de serem “eliminados”, mesmo quando conseguimos nos recuperar, nos restabelecer, nos reabilitar (não é à toa que todas essas palavras começam com “re”, ou seja, um movimento de retorno que não anula uma condição prévia), não sem muito esforço e investimento pessoal. Ser resiliente não é uma condição humana. É mais um peso, uma imposição, uma expectativa rasa, cruel, conveniente e inconsequente acerca da nossa condição. A resiliência é ótima como discurso de autoajuda, uma vez que pressupõe que o choque, o sofrimento, as decepções etc., vão acontecer e que você deve “aguentar firme” (aliás, mote de uma campanha publicitária de uma organização que demitiu durante a pandemia, mas que discursava sobre a tal resiliência – do outro, certamente).

Quando observamos a resiliência no discurso corporativo vemos uma apropriação complicada. Uma empresa resiliente é aquela que enfrenta as adversidades, que sofre o impacto, mas que reage positivamente, superando os transtornos. Esta postura pressupõe fragilidade, fraqueza, suscetibilidade, ou seja, abre espaço para a naturalização da vulnerabilidade. Quiçá ser forte seja o caminho desejável, afinal, como estrutura social organizada, idealmente com objetivos claros, manejo e orquestração de recursos para obtenção de um produto/serviço relevante, que atende aos anseios dos cidadãos, tenha firmeza de propósitos etc. etc., parece que as organizações reúnem todas as características para esta condição de vigor. Uma organização não deve ser resiliente a priori, mas sim, forte, vigorosa, anti-frágil, como ideal. Ao contrário de nós humanos, as organizações podem ser infalíveis, podem viver 300 anos ou mais, tempos vários exemplos que comprovam isso. Empresa resiliente é assumir um falibilismo que não coaduna com o sentido ideal de uma organização, é refúgio psicológico de executivos temerosos.

E para nós, simples humanos, aceitar a resiliência é presumir a priori o descompromisso, o desinteresse e o desamor com o outro; aguenta aí, seja resiliente, um endosso à promoção do sofrimento. É um tipo de licença para provocar o sofrimento alheio.

Devemos seguir exatamente o caminho contrário das organizações, aceitarmos nossa fragilidade e incompletude constitutivas, o que explica e reforça a necessidade que temos de respeito, cuidado e amor constantes para seguirmos o desfio de viver, e exigirmos das organizações o vigor das estruturas infalíveis.

 


Clotilde Perez

Professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, é titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Ela é fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Ela apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.

 

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