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Por que no Brasil perguntar ofende?

Clotilde Perez

Sempre me chamou muito a atenção o quanto, em nosso país, a pergunta vem carregada de indignação, desconforto e sugere indelicadeza. Perguntar é descortês. Perguntar ofende. Talvez por isso tenhamos a famosa máxima popular “perguntar não ofende” como tentativa de superar o mal-estar. E quais seriam as razões disso? Roberto DaMatta, antropológico competente e um brilhante conhecedor do Brasil e dos brasileiros, afirma que “em nossa sociedade, a indagação está ligada ao inquérito, forma de processamento jurídico acionado quando há suspeita de crime ou pecado” (2020, p. 42). Isso já explica que, dentro dessa lógica, deveríamos evitar a pergunta, pela suspeita que ela instaura.

 

Talvez o pavor que a pergunta provoca em nossa sociedade esteja ligado à dificuldade de dizer “não sei”; temos medo de parecer incultos e sermos rejeitados por isso. Há sociedades onde o não saber é compreendido com naturalidade, sem suscitar julgamentos precipitados. Não é o caso da nossa.

 

Mas a rejeição à pergunta parece ter razões mais profundas, associadas à nossa própria constituição social, o que implica considerar os fundamentos e a consolidação dos nossos valores sociais. Sem questionamentos, a vida em sociedade poderá seguir sem sobressaltos, imprevistos ou tensionamentos desagradáveis. Este desejo de uma sociedade lisa, morna e sem relevo, sugere que ela é, na verdade, absolutamente hierárquica, regida pelo princípio da manutenção de um tipo de normalidade, garantia de permanência dos lugares sociais, a despeito das desigualdades e das assimetrias. Nestes contextos, a pergunta incomoda e pode gerar uma revolução e, com isso, provocar ou desintegrar a estabilidade de condições ou de intenções que se pretende cultivar na passividade da normalidade, confundida propositadamente com harmonia, permanência e pacificação. Ou ainda, a pergunta pode revelar verdades inconvenientes, por isso, deve ser abafada, eliminada e silenciada e o arguidor, desqualificado.

 

Mas, se perguntamos, é porque queremos saber. A pergunta, a indagação, o inconformismo e a dúvida nos guiam rumo ao esclarecimento. A dúvida é o fundamento da ciência, nos coloca em movimento, nos dá condições de construir possibilidades, hipóteses e inferências e sua solução faz o conhecimento avançar. Sem dúvida, não há ciência. Mas, mesmo nos contextos onde a ciência é o princípio norteador do pensamento e dos fazeres, é possível vivenciarmos situações de silenciamento porque também a ciência, a pesquisa e a formação podem ser atravessadas pelas lógicas hierárquicas e elitistas típicas de um país como o Brasil, onde a manutenção dos lugares sociais é garantia de privilégios para poucos e de dificuldades para muitos. No entanto, sigamos perguntando!

 

Referência

DAMATTA, Roberto. Você sabe com quem está falando? Estudos sobre o autoritarismo brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 2020

 

Clotilde Perez

Professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, é titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Ela é fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Ela apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.

 

 

 

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