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Marilyn + Warhol = R$ 1 bilhão ou o desespero humano

Clotilde Perez

Ontem, 10 de maio de 2002, a incensada casa de leilões Christie´s de Nova York, anunciou a venda do famoso retrato de Marilyn Monroe “Shot Sage Blue Marilyn”, criado por Andy Warhol nos anos 60, por U$ 195 milhões, o equivalente a R$ 1 bilhão. O fato desbanca o valor da obra “Les Femmes d´Alger” de Pablo Picasso (1881-1973) vendida em 2015, por U$ 179,4 milhões, aproximadamente R$ 930 milhões. E o que isso significa?

Obra “Les Femmes d´Alger” de Pablo Picasso

 Marilyn Monroe (1926-1962), nascida Norma Jeane Mortenson, com uma história de vida sofrida, passando boa parte da infância em lares adotivos e orfanatos, para além de uma atriz linda, famosa e em constante tormento, tornou-se símbolo. Símbolo de uma indústria cinematográfica glamourizada; símbolo do feminino coisificado; símbolo do desespero humano. Essa tensão entre beleza, fama e tristeza parece encontrar ampla admiração.

 

Cena filme “O pecado mora ao lado” (reprodução)

Presente da cultura material de consumo em reproduções enquadradas, almofadas. Legos e camisetas até a ostentação de seus comportamentos (os mais famosos são o momento em que Marilyn sai de dentro do bolo de aniversário de John F. Kennedy e a cena gravada em 15 de setembro de 1954 na Lexington Avenue, em NY, para o filme “O pecado mora ao lado”, do diretor Billy Wilder, com o esvoaçante vestido branco que se expande para os sonhos de fãs há décadas. Marilyn está sempre presente, como no mais recente MET Gala 2022, quando Kim Kardashian veste o tal vestido que Marilyn usou para cantar Happy Birthday ao Mr. Presidente e atrai os holofotes fetichizantes do mundo do espetáculo midiático.

Obra Marilyn Monroe “Shot Sage Blue Marilyn” (reprodução)

Andy Warhol (1928-1987), designer e destacado artista do século XX, traz a marca da sociedade do consumo massificada para as suas obras, fixando a publicidade e as marcas como expressões centrais, reinventando a Pop Art por meio da reprodução mecânica e de suas inúmeras serigrafias, com algumas variações de cores, colagens e misturas de materiais. Ganhou atenção por suas aparições e programas na TV e pela criação da revista “Interview”, assumidamente, uma revista de fofocas (1969). Foi um artista midiático. Ficou notabilizado por suas criações, seus textos sobre consumo, mas também por ser expressão e visionário desta mesma sociedade de consumo atravessada pela mídia: in the future everyone will be famous for fifteen minutes. Apesar da imprecisão da métrica, hoje 15 segundos de fama já são bastante significativos na temporalidade frenética do TikTok.

O que une esses dois personagens são suas potências midiáticas audiovisuais características da paisagem das celebridades do século XX, agora ressignificadas e expandidas às ambiências inquietantes da web e, principalmente, das redes sociais. Criação, glamour, midiatização, consumo e vida breve, tudo isso como valor, inclusive de 1 bilhão de reais, denunciam o desespero humano desses anos turbulentos do ainda novo século XXI, que insiste em trazer à nossa consciência a inevitabilidade da morte, daí o desespero.

 

Por Clotilde Perez

Professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, é titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Ela é fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Ela apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.

 

 

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