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Feito de Luz: sensibilidade, inteligência e múltiplos talentos de Gilmar de Carvalho

Redação

Por Clotilde Perez

 

Poderia ter sido em São Paulo. Gilmar de Carvalho fez Mestrado em Comunicação na Universidade Metodista em São Paulo e terminou seu Doutorado em Comunicação e Semiótica na PUC SP, em 1998, ano em que comecei o meu doutorado, no mesmo programa. Mas, foi por meio da pesquisa que conheci Gilmar em Fortaleza. Guiada pelo zeigeist de um país que crescia e se desenvolvia econômica e socialmente, e na seara deste processo, um valorizado sentimento de brasilidade, inspirado em Câmara Cascudo “o melhor do Brasil é o brasileiro”, tomava o país. O interesse crescente pelos meandros da identidade nacional e pelas múltiplas identidades brasileiras, me levaram ao Ceará.

Na ocasião, eu orientava no mestrado em Ciências da Comunicação da USP, Alhen Rubens Damasceno, aluno cearense que foi à São Paulo, assim como Gilmar, para seguir com os estudos pós-graduados e, também ambos, formados na UFC, Gilmar em Direito e Comunicação Social, voltaram à sua cidade após a conclusão do mestrado e doutorado em São Paulo. O cearense vai, mas ele volta…. Quando disse ao meu aluno que estava buscando identificar especialistas em cultura e identidades regionais e suas relações com a comunicação e o consumo, em diferentes estados nordestinos, Alhen imediatamente me falou: precisa entrevistar o professor Gilmar. Gilmar foi professor nos cursos de Publicidade e Jornalismo da UFC por 25 anos, e nessa trajetória, formou e encantou gerações de alunos, futuros profissionais e pesquisadores tocados pela paixão e intenso trabalho reflexivo, de transmissão e produção intelectual e artística.

Como manda os cânones da pesquisa nas humanidades, a leitura atenta e implicada de autores que discutiam a identidade nordestina e, em particular, a identidade cearense estava em dia, mas alguns aspectos seguiam como dúvidas – essência de qualquer pesquisa. Partimos para a empiria, que contemplaria entrevistas em profundidade com especialistas, professores, produtores culturais, gestores públicos, etnografia em centros de compras populares e de luxo, museus, galerias de arte contemporânea e centros culturais, além de análise semiótica de expressões marcárias e de consumo recolhidas no campo. Um robusto e sofisticado planejamento de pesquisa, com um quê de muita ousadia: entender o que é o cearense, sendo eu uma paulista! Lugar de fala? Uma vez mais, lugar de fala de um pesquisador é o que ele quiser, ou seja, pesquisar o que desejar pesquisar, com liberdade, ética (entende-se rigor metodológico) e compromisso público.

Depois de algumas entrevistas com jornalistas, historiadores e empresários, chegava a hora de ir à Gilmar. Conheci Gilmar de Carvalho no campus da UFC – Universidade Federal do Ceará, em dezembro de 2011. Fomos apresentados e após os agradecimentos protocolares, iniciei com as minhas mais inquietantes indagações. Por que temos no país tantos comediantes cearenses? Há algo que explique esse fenômeno? E antes de deixá-lo elaborar a resposta, já emendei: porque o cearense gosta de ostentar?  Com os olhos direcionados para cima e um semblante de total amabilidade, Gilmar começou a falar. Envolvendo a todos os presentes, Gilmar nos levou ao passado das Capitanias Hereditárias, ao rei português, donatários e que tais. A explicação estava lá. No sentimento de filho sem pai que fez nascer no cearense os traços identitários do humor como escárnio e da ostentação do signo da vitória, apesar das circunstâncias.

Inteligente, criativo, sensível e generoso, assim era Gilmar de Carvalho. Sabia tudo sobre a cearensidade, da estética das jangadas, rendeiras e vaqueiros, passando pela gramática dos folhetos, pela poesia dos cordéis, pelos sons da sanfona e das rabecas, pelos textos teatrais, aos grafismos da xilogravura. Conhecia José de Alencar, Antônio Bezerra, Patativa do Assaré e Rachel de Queiróz, mas também Escolástica, Palhaço Pimenta e o Mestre Espedito Seleiro; transitava pela intelectualidade e pela sabedoria popular, construindo pontes. Foi professor, dramaturgo, jornalista, publicitário, pesquisador, escritor, artista, curador, romancista… Nessa exuberância pulsante havia uma marca; não se contentava com os reducionismos e a fixação dos estereótipos sobre o cearense ou mesmo sobre o povo do Nordeste. Buscava penetrar nos meandros da cultura popular e erudita, para encontrar seus veios, suas urdiduras, suas tramas fecundas. Estudava, ensinava e criava com a mesma leveza, dedicação e prodigalidade, habilidade sensível de poucos.

Com 54 livros lançados, mais de 600 textos publicados em diferentes livros e algumas dezenas de artigos científicos e capítulos de livro, se somam as dezenas de obras dramatúrgicas, com destaque para Orixás do Ceará, sua primeira peça, estreada em 1973. Não por acaso, o Ceará estava no título da obra. O dia em que Vaiaram o sol na Praça do Ferreira, de 1982, toca nas raízes do ser cearense, com uma boa dose de crítica, humor e compreensão sobre o povo.

Depois de 3 horas de entrevista, inebriada pela sabedoria sofisticada, mas ao mesmo tempo muito direta, pela gentileza envolvente e pela generosidade do partilhar, segui com o trabalho de campo, fortalecida pela luz própria das ideias claras e pelo regozijo característico de quando a dúvida encontra uma resposta e a resposta era Gilmar de Carvalho. Trocamos alguns livros e a vontade de seguir a conversa era evidente. Depois da entrevista com Gilmar, todas as outras entrevistas, observações, leituras e análises pareciam ir se encaixando, se ajustando, fazendo sentido.

Em 2013, convidei Gilmar de Carvalho para ir à São Paulo, proferir a conferência de abertura do IV Propesq PP – Encontro Nacional dos Pesquisadores em Publicidade, na ECA USP, principal evento da ABP2 – Associação Brasileira dos Pesquisadores em Publicidade. Momento de reverenciar a vasta produção intelectual de Gilmar, relembrar sua obra Publicidade em Cordel, o mote do consumo (1994, 2002) e compartilhar com pesquisadores de todas as regiões do país, a fartura de sua produção e o entusiasmo do pesquisador-artista que vivia inquieto e produtivo, sempre engajado com as questões do seu tempo, de antes e depois.

No ano seguinte, recebi de Gilmar, vários dos seus livros que não encontrava com facilidade em São Paulo, novamente sua bondade emocionante. Desde 2018 seguia seu perfil no Instagram e agora a felicidade era também minha pela constatação de que continuava com a sua pesquisa. Gilmar seguia praticando uma etnografia própria, com inspiração na observação participante, imersão no campo e abertura de todos os sentidos, estabelecendo uma percepção sensível e poética, que favorecia sua entrada na tessitura das histórias que ouvia, nos movimentos hábeis dos artesãos, nos sons dos instrumentos e na essência das materialidades que se tornavam arte pelas mãos, mentes e corações do povo. Gilmar seguia interessado pelos artesãos, sanfoneiros, designers do couro, ceramistas, poetas, brincantes, repentistas, rendeiras de bilros, mestres de capoeira, rainhas de carnaval, repentistas; nenhuma manifestação escapava ao seu interesse, elaboração intelectual e desejo de partilhar.

Difícil compreender o mistério da vida, ainda mais difícil aceitar a perda de uma vida cheia dos melhores sentidos, como a de Francisco Gilmar Cavalcante de Carvalho, nascido em 30 de Agosto de 1949, em Sobral, Ceará. Vítima da Covid-19, Gilmar faleceu em Fortaleza, em 17 de abril de 2021, antes que pudesse se beneficiar das vacinas e tratamentos que salvaram tantas vidas. Uma perda irreparável, decorrente de uma pandemia que poderia ter sido melhor administrada, poupando sofrimentos e vidas, se os interesses públicos e a valorização da ciência fundamentassem e guiassem os que pela função, deveriam nos proteger.

O legado é imenso e a luz que iluminou os caminhos de tantos, insiste em brilhar em cada fragmento dos seus textos, suas produções e suas ideias presentes na memória de cada um, que assim como eu, teve o privilégio de conhecê-lo e de aprender um pouco mais sobre quem somos.

Um gigante humanista.

Um grande cearense.

Um enorme brasileiro.

Saudades.

 

Clotilde Perez

Professora universitária, pesquisadora, consultora e colunista brasileira, é titular de semiótica e publicidade da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, concentrando seus estudos nas áreas da semiótica, comunicação, consumo e sociedade contemporânea. Ela é fundadora da Casa Semio, primeiro e único instituto de pesquisa de mercado voltado à semiótica no Brasil, já tendo prestado consultoria nessa área para grandes empresas nacionais e internacionais, conjugando o pensamento científico às práticas de mercado. Ela apresenta palestras e seminários no Brasil e no mundo sobre semiótica, suas aplicações no mercado e diversos recortes temáticos em uma perspectiva latino-americana e brasileira em diálogo com os grandes movimentos globais.

 

        

 

 

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