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Emojis na pandemia: representatividade e transformação

Silvio Koiti Sato

 


A comunicação e a informação mediadas pela tecnologia se apresentam de forma onipresente no nosso cotidiano, sobretudo no contexto atual, acompanhando ininterruptamente a rotina virtual possível em tempos de distanciamento e isolamento social. Novos devices, telas, aplicativos e ferramentas são lançados e assimilados individual e coletivamente, muitas vezes celebrados ou odiados de forma apressada, na lógica da polarização e cancelamentos que marca o contemporâneo. Com isso, a adoção de uma nova tecnologia se insere na cultura de consumo como um valor inquestionável a ser buscado não só como forma de distinção, mas sobretudo como estratégia de inclusão e sobrevivência.

Indo além da tecnologia e suas possibilidades midiáticas, queremos destacar que inúmeros fenômenos de linguagem que são desenvolvidos na comunicação em rede, como os emojis. Estes elementos visuais onipresentes nas mensagens instantâneas e nas publicações em redes sociais digitais surgiram no Japão na década de 1990, com a ideia da concisão visual de significados convencionados, aos moldes dos ideogramas que compõem a linguagem escrita naquele país. Sua popularização em nível mundial ocorreu quando foram introduzidos nos aparelhos da Apple (2011) e no sistema Android (2013). A partir daí os emojis entraram no cotidiano escrito mundial, em mensagens pessoais e corporativas, campanhas publicitárias, ações de marketing, filmes, séries e itens tangíveis de decoração e moda. Ou seja, os estes elementos visuais transbordaram a cultura digital e fazem parte hoje da cultura pop.

A rápida popularização dos emojis pode ser explicada por diversos fatores: eles adicionam emotividade ao texto escrito (é comum a combinação de textos e figuras) e esclarecem o tom do que é digitado, como uma camada adicional de significado para seu entendimento pleno. Com isso, eles trazem expressividade afetiva aos textos das mensagens. Além disso, eles têm outras vantagens: a instantaneidade, por serem mais rapidamente “digitados” que um texto, e a universalidade, já que expressam ideias por meio de figuras, e não por palavras de um determinado idioma. Estas características aproximam ainda mais os emojis da cultura digital, que valoriza o real time, numa busca incessante pelo que está acontecendo num determinado momento, além da comunicação que não respeita limites geográficos, mas que é baseada em comunidades de interesse em rede. Estas qualidades do emoji (concisão, emotividade, instantaneidade e universalidade) podem explicar a repercussão que um único emoji pode causar, como ocorreu recentemente com o empresário estadunidense Elon Musk da Tesla, que postou um “coração partido” com a hashtag #bitcoin no Twitter, associando-o à suspensão da aceitação de moeda digital como pagamento pelos veículos elétricos produzidos pela companhia, causando imediata queda no valor de mercado desta moeda em função da especulação sobre o significado do tuíte. Ou seja, os usos dos emojis incluem também a transformação dos significados originais estabelecidos (como o coração partido para o final de relações amorosas) para expressar outras ideias em diferentes contextos, que muitas vezes não possuem elementos específicos, como ocorre no envio de emojis de frutas e legumes (pêssego e berinjela, por exemplo) com conotações sexuais.

Com isso, o reconhecimento da importância dos emojis passa também pela demanda pela criação de novos elementos. Vale lembrar que eles são convencionados por um grupo de desenvolvedores que disponibilizam e padronizam os parâmetros de sua aparência visual e seu significado. Ao longo do tempo, é crescente o lançamento de emojis relacionados a demandas sociais como a inclusão, igualdade e diversidade, no sentido da representatividade, como em questões de etnia, gênero e orientação sexual etc. Ou seja, há cada vez mais possibilidades de variações para o mesmo emoji, sobretudo para aqueles que envolvem representações de características físicas do ser humano (rostos, partes do corpo, pessoas e seus relacionamentos e atividades).  Um grande desafio neste processo é a convivência entre a universalidade baseada na convenção, generalização e padronização, por um lado, e a busca por representatividade, inclusão e diversidade, que trazem maior complexidade como inevitável consequência.

Há emojis também que passam por revisões em sua aparência visual, dialogando com mudanças da sociedade e seu contexto. Um exemplo é o emoji da seringa, que originalmente exibia gotas de sague saindo da ponta da agulha. Com a popularização do uso em função dos programas de vacinação contra a Covid19, ele foi alterado no início de 2021, com a retirada das gotas a fim de tornar o emojis mais próximo da ideia de vacina e afastar qualquer associação entre a vacina e a coleta de sangue. Outro emoji alterado também em função da pandemia foi o “rosto com máscara”, que inicialmente representava alguém doente e que por isso tinha um semblante triste, com olhos para baixo. Com a adoção do emoji em larga escala para promover o uso da máscara como proteção, o rosto passou por uma revisão visual para exibir uma expressão saudável, com olhos satisfeitos e bochechas avermelhadas.

Podemos dizer, finalmente, que a evolução dos emojis mostra a criação e transformação coletiva de uma linguagem em movimento, com desdobramentos que ajudam a entender e registrar o espírito do nosso tempo. Talvez essa perspectiva ajude a refletir sobre a ascensão do emoji do “rosto chorando copiosamente” como o mais utilizado no mundo no início de 2021 no Twitter, ultrapassando pela primeira vez “rosto chorando de rir”. Ambos representam a intensidade de sentimentos, num gradiente crescente, sendo que o riso exagerado que chega às lágrimas é superado pelo choro escandaloso, interminável, numa corrente contínua. Seu uso associado ao emoji da seringa (vacina), combinação frequente nas redes, direciona nossos pensamentos a uma profusão de sentimentos mesclados e contraditórios que refletem angústias e desejos individuais e coletivos.

 

Silvio Koiti Sato

Doutor e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA USP. Publicitário formado pela ESPM. Pesquisador junto ao GESC3 – Grupo de Estudos Semióticos em Comunicação, Cultura e Consumo – ECA USP. Professor da ESPM e da FAAP. Sócio fundador da Casa Semio.

 

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