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Contra o amargor, um consumo simples e doce

Clotilde Perez

Viver nos últimos anos significou enfrentar uma pluralidade de crises em diferentes dimensões de nossa existência. Da pandemia, guerras e tensões do mundo em geral, às particularidades brasileiras, em suas crises sanitária, econômica, política, social… Ou seja, em maior ou menor grau, o sofrimento psíquico (e físico, há de se dizer) passou a ser parte indissociável do cotidiano.

 

No âmbito privado, as respostas para essas crises têm sido diversas, mas uma das mais expressivas é a busca por um descolamento da realidade, seja estética nas narrativas fantasiosas ou na hiper-realidade do neon, seja nas maratonas de série, no aumento do consumo de álcool ou na ingestão de substâncias psicoativas. Porém, mais recentemente temos visto manifestações no mercado que apontam novas possibilidades: contra a dureza do estar-no-mundo, momentos de diversão e entretenimento marcados pela simplicidade e pela doçura. Duas categorias bastante distintas parecem nos revelar um caminho similar.

 

A primeira delas é a das bebidas alcóolicas. Não é recente o crescimento do espaço ocupado pelas bebidas mistas nas gôndolas dos mercados. Das mais tradicionais Smirnoff Ice e Beats, até novas versões de outros rótulos: a cachaça Cabaré agora tem Cabaré Ice, o mesmo com 51 e 51 Ice. Ou ainda, a limonada alcóolica da Ambev, a Mike’s; a “recém-chegada” hard seltzer (uma espécie de água alcóolica saborizada); gin tônicas já engarrafados; ou o, em breve a ser lançado, Fresca Mixed, um coquetel à base de aguardente da Coca-Cola. Sem deixar de contar aqueles mais populares, com a febre da Catuaba anos atrás, a vibrante Ousadia ou o Corote com um sem-número de sabores.

 

O que tudo isso tem em comum? Atravessando do mais premium ao mais popularesco, são todas bebidas de fácil consumo. Basta abrir, beber e sentir um sabor agradável. Não por acaso, tangenciando esse território, o vinho Pergola é o mais vendido no Brasil ano após ano. Trata-se de um vinho suave (ou seja, tem açúcar) que reúne o efeito do álcool (inevitavelmente associado à diversão) com a agradabilidade gustativa.

 

Em sentido parecido, em 2022 Smirnoff lança sua versão Infusions, com dois novos sabores (Watermelon & Mint e Passion Fruit & Jasmine), enquanto Beefeater revela a linha Botanics, um gin com limão e gengibre. Mais uma vez, menos esforço na elaboração de sofisticados e complexos coquetéis, mas a simplicidade de adicionar gelo, água tônica e beber.

 

A diferença entre o boom das bebidas mistas e essa nova onda de infusões está no teor alcóolico reduzido dessas últimas, o que nos revela novas estratégias para lidar com os sofrimentos contemporâneos. Depois de anos de pandemia, retornamos à rua, retornamos à vida. Para não renunciar a isso e ao mesmo tempo lidar com a dureza do contexto, menos descolar-se do real, com exagero no consumo alcóolico, mas edulcorar o cotidiano. Edulcorar, nesse caso, tanto em seu sentido mais concreto de “tornar doce ao paladar”, quanto no figurado de adocicar, suavizar, amansar.

 

Para finalizar, outra manifestação da busca por uma vida simples e doce: a série Heartstopper (2022), o novo sucesso da Netflix. A produção, baseada nos quadrinhos de Alice Oseman, conta a história de dois garotos pelos seus 15 e 16 anos que se apaixonam na escola. A diferença das narrativas usuais que trabalham com a temática LGBTQIA+ é a suavidade com a qual os oito episódios se desenvolvem.

 

A história é completamente cotidiana. Estamos falando de adolescentes (que aqui têm efetivamente aparência de adolescentes) no seu dia a dia escolar, vivenciando suas rotinas e descobrindo aos poucos quem são ou caminham para ser. Ao contrário de outras produções que circundam essa temática, a série mostra (e por isso bastante elogiada) que é possível um final feliz cinematográfico para uma história de amor entre dois rapazes.

 

Há desafios? Evidente que sim. Mas ora apenas citados e não mostrados, ora superados de forma absolutamente leve. Tudo isso com uma simplicidade nos diálogos própria da adolescência, com personagens cândidos, com suavidade estética, em cenas claras e grafismos coloridos voando pela tela, e com uma doçura nos relacionamentos entre amigos, entre família e entre namorados.

 

E assim vemos um outro caminho para enfrentar as vicissitudes que aparecem por nosso caminho. Em um momento em que voltamos a nos reunir, a encontrar nossos afetos e que, de alguma forma, voltamos a viver, o mercado repetidamente nos oferece lançamentos para encantar o cotidiano ao invés de escapar dele. Se de amargo basta a vida, para os momentos de crises e sofrimentos, há o simples e o doce. Ou no melhor estilo Mary Poppins, com um pouco de açúcar, até remédio é um prazer.

 

Rafael Orlandini

Publicitário, especialista em Cultura Material & Consumo, mestrando em Ciências da Comunicação pela ECA USP e pesquisador da Casa Semio.

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